Ela estava sentada, à porta de um bar. Na mão havia uma rosa. Vermelha: como se feita do sangue quente que corria por todo o corpo, como veia que levasse até a superfície o sangue carregado das emoções mais rubras.
Era quase teatral. A mulher sentada, com a rosa na mão, os olhos borrados, derrotados, olhando aquele que era o motivo de sua ruína. Dos olhos escorrendo lágrimas negras, como tinta escorrendo em tela, misturando-se ao vermelho, ao chegar aos lábios.
Meu olhar - indiscreto, eu sei - não conseguia desfocar de tal imagem. Foi quando o quadro criou vida: a mulher, levantando, mirou fixamente o homem que, sentado ao seu lado, tremeu. Olhar altivo, carregado de mágoas e de vingança. A rosa em suas mãos pareceu sangrar, o vermelho vazando pelas bordas.
Então, a primeira pétala se desprendeu. Ninguém olhou, o mundo calou. Ouviu-se, ao longe, um grito, um trovão e então veio a ventania. Tão de repente o tempo virou, a mulher, feito argila, estava de pé. Os olhos não mais marejados, agora grandes e furiosos. Mas vi também um brilho novo, uma faísca de divindade.
E, repentina, mais uma pétala foi ao vento. Ela gritou, como se seu brado fosse arrazar a terra. Vinha do peito, trazendo com ele sentimentos vicerais. "piedade!" rogavam os tementes, mas um era mais temente que todos: o causador da desgraça. Ele assistia à tudo e por tudo se culpava, de tudo se arrependia e de todo modo se desculpava.
A terceira pétala estalou e estalaram os ossos do arrependido. Seu corpo se debatia, desenhando formas que traduziam dores inconfessáveis.