Tenho exatamente trinta minutos.
Mal sei por onde começo, muito menos onde terminarei. Sei de onde vim, e me lembro onde parei. Mas em trinta minutos o que mais saberei?
Quanto tempo cabe em trinta minutos? O tempo de um grito, o tempo de uma lágrima, o tempo de um homem. Quanto tempo cabe em cada homem? Quantos homens cabem em trinta minutos?
Quem eu sou em trinta minutos? Saberia eu responder a isso em trinta minutos? Posso responder muitas coisas neste tempo, e talvez acabe não respondendo a nada. Nós nunca sabemos nada, mesmo sabendo tudo. O tudo não existe.
O tempo existe? Quanto tempo se passou? Cinco, quinze, dezesseis, zero... Números existem? Vivo as perguntas por enquanto, no futuro, talvez, eu viva as respostas.
Questionar a mim é exercício improdutivo, questionarei a outro. Outro, que diz-me tu de mim? O nada me responde mais do que eu respondo a mim mesmo, por isso sempre recorro a ele. Trinta minutos conversando com o nada, são como anos conversando com Deus.
O nada me dá a comida, mas eu devo digeri-la. O que concluo eu, então? Que vivemos os efeitos do mundo contemporâneo? Que tudo não passa de uma catarse? Que devo procurar auxílio médico imediatamente? Eu concluo que a verdade está no nada, e nada mais verdadeiro que nada concluir. Ao menos nada racional, vamos ao subjetivo. Pois subjetivando já se passaram quinze minutos, o racional levaria um tempo maior.
Quero em trinta minutos, contidos em quinze, contar uma história sem roteiro. Quero mandar uma carta em branco, e quem receber que a escreva. Escreva em trinta minutos, quinze, e não conclua. A conclusão sempre será incompleta. A sensação sempre será verdadeira. A sensação vem do nada, o nada subjetivo, o nada que é sincero, inocente, inconsciente.
E sem perceber me chegam os cinco minutos finais. Se me preocupasse em concluir algo, esses seriam meus momentos de morte. A cada minuto eu morreria um pouquinho e, ao último minuto, se nada concluísse, morreria com pompa, uma morte digna de uma tragédia grega. Gosto do drama.
Mas nada quero concluir, concluam vocês, se quiserem.
O que cabe agora é um adeus, mas também não quero me despedir, portanto direi, oi. E só.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
hidrogênito
Como um rio
Passo do sereno ao revolto
Viro cascata e corro
Sou um ciclo infinito
Não morro
Sou água, me moldo
Recrio e transformo
Sou vida, sou vivo
Recato e lascivo
É ambíguo, disforme
A coerência é oculta
É frio na alvorada
Esquenta ao poer
Divinamente profano
Seus encantos, tantos quantos
Seus defeitos, seus malfeitos
Inconfessos no olhar.
Passo do sereno ao revolto
Viro cascata e corro
Sou um ciclo infinito
Não morro
Sou água, me moldo
Recrio e transformo
Sou vida, sou vivo
Recato e lascivo
É ambíguo, disforme
A coerência é oculta
É frio na alvorada
Esquenta ao poer
Divinamente profano
Seus encantos, tantos quantos
Seus defeitos, seus malfeitos
Inconfessos no olhar.
sábado, 4 de setembro de 2010
Néctar
Eu vi quando a borboleta, com sede de néctar, beijou a flor. Mesmo não devendo estar ali, por motivos éticos óbvios, fiquei, pois fui pego de surpresa. No momento inconscientemente esperado, a borboleta beijou com ansiedade a flor. No sugar do néctar, o estremecer das asas. Ela sabia que estava sendo assistida e isso aumentava seu regozijo. Era quase lírico. Era belo e abominável. Era o mais divino pecado.
Certa hora, a borboleta, cheia de cores e encantos, veio leve e sutil até mim. Convidou-me a sugar do néctar, como um anjo convida à oração. Era tão arrebatador, que nessa hora não sei se via uma borboleta ou uma mariposa. Fosse o que fosse, eu era eu, e sendo eu o convidado, deveria aceitar ou não o convite. Lembrei-me da etiqueta, do certo e do errado, da relatividade, da dúvida... Na dúvida, abstive-me.
Houve certa agitação da parte da mariboleta, como se o meu "não sei" fosse "não" e isso a ofendeu e a afugentou. Ela voltou a sugar o néctar, mas agora estava com vergonha do prazer, mas continuava fraca ao desejo.
Não durou muito. Interrompeu-se o rito, saudou a flor, e foi-se. Eu fiquei.
Certa hora, a borboleta, cheia de cores e encantos, veio leve e sutil até mim. Convidou-me a sugar do néctar, como um anjo convida à oração. Era tão arrebatador, que nessa hora não sei se via uma borboleta ou uma mariposa. Fosse o que fosse, eu era eu, e sendo eu o convidado, deveria aceitar ou não o convite. Lembrei-me da etiqueta, do certo e do errado, da relatividade, da dúvida... Na dúvida, abstive-me.
Houve certa agitação da parte da mariboleta, como se o meu "não sei" fosse "não" e isso a ofendeu e a afugentou. Ela voltou a sugar o néctar, mas agora estava com vergonha do prazer, mas continuava fraca ao desejo.
Não durou muito. Interrompeu-se o rito, saudou a flor, e foi-se. Eu fiquei.
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