sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Palhaço se faz na merda

Quem és tú, palhaço?
Que fazes o risos jorar que nem água
Que fazes da merda tua jóia mais cara
Que fazes de ti maltrapilho

Que fazes, palhaço?
No palco, no coro, no grito
No riso, no choro, no limbo
Nos olhos que brilham pra ti

Que queres, palhaço?
Um troco da velha caduca
Um toco de vela defunta
Um trono de tolo

Que tens, palhaço?
Este riso não é teu
Este lírio que morreu
É o que resta

E ainda cantas
Corres, voas, encantas
Fazes, desfazes, levantas
Só choras sozinho

Que merda, palhaço

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Primeira carta à rainha

Nosso olhar está cheio de coisas
Coisas que vou descobrindo aos poucos
Nosso olhar é só nosso

Entre nós há perfumes, detalhes e cores
Entre nós há carinho, abraços, amores
Entre nós não há nada
Nada demais

Guarda teu amor, com carinho e alfazema
Que eu guardo nosso segredo
Nossa palavra não dita
Nosso carinho regrado
Nosso jeito, que só a gente entende
Só a gente entende...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Passado, enfim...

Olhar-te nos olhos é como espetar-se no espinho, passado
Ver aquilo que viveu; viver aquilo que já viu, vendo
Chorar o que não viveu, não vivendo

Jogar-te fora é como suicídio, passado
Me fazes mal, mas não te largo
e nem te quero
Como quere-te bem se fazes-me doente?
Como sarar das pernas, sem deixar de lado a bengala?
Como matar-te ingerindo teu veneno?

Vista-me de noiva, casa-me passado
Leva-me para teu ninho, faz-me passarinho
Voa comigo, mostra-me o fim
Acaba comigo, passado, enfim...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Saneamento Próprio

To tirando o pó do canto
Consertando o móvel torto
To esfregando o mal lavado
Faxinando o eu sujado

A casa suja
ninguém lava
A casa é minha
Ninguém paga

Sou o dono
O culpado
Sou o sujo
O mal lavado

Minha veia esgoto
Corre solto
Coração bombeia
Merda

Meu sangue é lodo
Injete em mim o fogo
Que me queime o corpo todo
A alma ja se foi

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ana Grama

No tango trago Hiago
Gato, torno roto
rogo agouro

Ato no trono
Na grua, nato
No gota, tino
No togo, roubo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Meus trinta minutos

 Tenho exatamente trinta minutos.
 Mal sei por onde começo, muito menos onde terminarei. Sei de onde vim, e me lembro onde parei. Mas em trinta minutos o que mais saberei?
 Quanto tempo cabe em trinta minutos? O tempo de um grito, o tempo de uma lágrima, o tempo de um homem. Quanto tempo cabe em cada homem? Quantos homens cabem em trinta minutos?
 Quem eu sou em trinta minutos? Saberia eu responder a isso em trinta minutos? Posso responder muitas coisas neste tempo, e talvez acabe não respondendo a nada. Nós nunca sabemos nada, mesmo sabendo tudo. O tudo não existe.
 O tempo existe? Quanto tempo se passou? Cinco, quinze, dezesseis, zero... Números existem? Vivo as perguntas por enquanto, no futuro, talvez, eu viva as respostas.
 Questionar a mim é exercício improdutivo, questionarei a outro. Outro, que diz-me tu de mim? O nada me responde mais do que eu respondo a mim mesmo, por isso sempre recorro a ele. Trinta minutos conversando com o nada, são como anos conversando com Deus.
 O nada me dá a comida, mas eu devo digeri-la. O que concluo eu, então? Que vivemos os efeitos do mundo contemporâneo? Que tudo não passa de uma catarse? Que devo procurar auxílio médico imediatamente? Eu concluo que a verdade está no nada, e nada mais verdadeiro que nada concluir. Ao menos nada racional, vamos ao subjetivo. Pois subjetivando já se passaram quinze minutos, o racional levaria um tempo maior.
 Quero em trinta minutos, contidos em quinze, contar uma história sem roteiro. Quero mandar uma carta em branco, e quem receber que a escreva. Escreva em trinta minutos, quinze, e não conclua. A conclusão sempre será incompleta. A sensação sempre será verdadeira. A sensação vem do nada, o nada subjetivo, o nada que é sincero, inocente, inconsciente.
 E sem perceber me chegam os cinco minutos finais. Se me preocupasse em concluir algo, esses seriam meus momentos de morte. A cada minuto eu morreria um pouquinho e, ao último minuto, se nada concluísse, morreria com pompa, uma morte digna de uma tragédia grega. Gosto do drama.
 Mas nada quero concluir, concluam vocês, se quiserem.
 O que cabe agora é um adeus, mas também não quero me despedir, portanto direi, oi. E só.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

hidrogênito

Como um rio
Passo do sereno ao revolto
Viro cascata e corro
Sou um ciclo infinito
Não morro

Sou água, me moldo
Recrio e transformo
Sou vida, sou vivo
Recato e lascivo

É ambíguo, disforme
A coerência é oculta
É frio na alvorada
Esquenta ao poer

Divinamente profano
Seus encantos, tantos quantos
Seus defeitos, seus malfeitos
Inconfessos no olhar.

sábado, 4 de setembro de 2010

Minha semi-vida vegetativa

é isso...

Néctar

  Eu vi quando a borboleta, com sede de néctar, beijou a flor. Mesmo não devendo estar ali, por motivos éticos óbvios, fiquei, pois fui pego de surpresa. No momento inconscientemente esperado, a borboleta beijou com ansiedade a flor. No sugar do néctar, o estremecer das asas. Ela sabia que estava sendo assistida e isso aumentava seu regozijo. Era quase lírico. Era belo e abominável. Era o mais divino pecado.
  Certa hora, a borboleta, cheia de cores e encantos, veio leve e sutil até mim. Convidou-me a sugar do néctar, como um anjo convida à oração. Era tão arrebatador, que nessa hora não sei se via uma borboleta ou uma mariposa. Fosse o que fosse, eu era eu, e sendo eu o convidado, deveria aceitar ou não o convite. Lembrei-me da etiqueta, do certo e do errado, da relatividade, da dúvida... Na dúvida, abstive-me.
  Houve certa agitação da parte da mariboleta, como se o meu "não sei" fosse "não" e isso a ofendeu e a afugentou. Ela voltou a sugar o néctar, mas agora estava com vergonha do prazer, mas continuava fraca ao desejo.
  Não durou muito. Interrompeu-se o rito, saudou a flor, e foi-se. Eu fiquei.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

As pétalas da rosa (incompleto)

 Ela estava sentada, à porta de um bar. Na mão havia uma rosa. Vermelha: como se feita do sangue quente que corria por todo o corpo, como veia que levasse até a superfície o sangue carregado das emoções mais rubras.
 Era quase teatral. A mulher sentada, com a rosa na mão, os olhos borrados, derrotados, olhando aquele que era o motivo de sua ruína. Dos olhos escorrendo lágrimas negras, como tinta escorrendo em tela, misturando-se ao vermelho, ao chegar aos lábios.
 Meu olhar - indiscreto, eu sei - não conseguia desfocar de tal imagem. Foi quando o quadro criou vida: a mulher, levantando, mirou fixamente o homem que, sentado ao seu lado, tremeu. Olhar altivo, carregado de mágoas e de vingança. A rosa em suas mãos pareceu sangrar, o vermelho vazando pelas bordas.
 Então, a primeira pétala se desprendeu. Ninguém olhou, o mundo calou. Ouviu-se, ao longe, um grito, um trovão e então veio a ventania. Tão de repente o tempo virou, a mulher, feito argila, estava de pé. Os olhos não mais marejados, agora grandes e furiosos. Mas vi também um brilho novo, uma faísca de divindade.
 E, repentina, mais uma pétala foi ao vento. Ela gritou, como se seu brado fosse arrazar a terra. Vinha do peito, trazendo com ele sentimentos vicerais. "piedade!" rogavam os tementes, mas um era mais temente que todos: o causador da desgraça. Ele assistia à tudo e por tudo se culpava, de tudo se arrependia e de todo modo se desculpava.
 A terceira pétala estalou e estalaram os ossos do arrependido. Seu corpo se debatia, desenhando formas que traduziam dores inconfessáveis.

sábado, 22 de maio de 2010

Que venha o inesperado

Agora só quero uma coisa:
quero tudo inesperado!
Que nada seja previsto,
nada seja combinado,
que nada seja falso e rebocado.
Quero a verdade azeda e fria,
estampada numa cara de paisagem.

Que tudo me surpreenda,
que tudo me assuste,
que o inimaginável aconteça,
que a vida me diga o que não quero dizer a mim mesmo
- que sou apenas humano,
humano ignorante e falho,
e que nada que possa prever
estará aos pés do que a vida pode trazer.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fundamentos

 Tenhos todos os fundamentos possíveis pra dizer que todo fundamento humano é imperfeito. Somos filhos do erro, e ainda assim elevamos nossos egos ponto de, emocionados, dissertar sobre o quão dignos somos em nossos preceitos, nossas tradições... Tudo falso! um conselho: coloque o lixo para fora, pois já está há tanto tempo apodrecido, que nos acostumamos com o cheiro. E tenho dito!

domingo, 16 de maio de 2010

Redenção

   Meu redentor corre ao meu lado. Ainda que no fogo, ainda que no gelo, suas asas batem, suaves, ao meu lado. Mas há uma venda em meus olhos, que mãos desconhecidas puseram, com minha concessão inconsciente. Meus ouvidos, surdos pela falta de uso, também não o ouvem. Minha redenção caminha ao meu lado, mas fujo dela.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O mistério da Vênus-Esfinge

  Tragas as mais belas rosas e as colocarei em um vaso, à beira da janela. Tragas os mais belos poemas e os guardarei embaixo do travesseiro, para adoçar meus sonhos. Só não esperes mais que minha ternura em troca.
  Tu és uma distração. Tenho coisas das quais cuidar que uma distração sequer me arruinaria. Eu cuido do mundo, e sem mim, o que seria dele? Que seria do mundo se eu não abrisse a janela toda manhã, fazendo nascer o sol? Que seria do mundo se eu não chorasse ao fim da tarde, fazendo a chuva cair? Que seria do mundo se eu não me enfeitasse à noite, fazendo brilhar a lua e as estrelas?
  Mas, acima de tudo, preciso cuidar de mim. Pois, o que seria do mundo sem mim? O que seria de ti sem o mundo? E o que seria do teu mundo sem mim? Cuidar de mim é trabalho árduo. Os mais disciplinados talvez não conseguissem. Nasci da espuma do mar, sou Vênus. Manter no eixo é tarefa digna de um Hércules. Podes contra Hércules? Nem contra ele, nem contra mim!
  Desistes se és são, e deixa tuas flores, e vai-te viver. Comigo não viverás, pois sou a vida, e se tentares viver comigo acabarás vivendo em mim. Devorar-te ei, pois não me decifrarás! Jamais!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Esperamos que um dia nossas vidas possam se encontrar

  Eu ainda não sei o seu segredo. Na verdade, nada sei sobre você. Esqueci tudo. Só o que sei e o que me lembro é que minha cabeça só consegue se concentrar no seu sorriso, como um horizonte para mim, e é sempre como se o visse pela primeira vez. Sinto-me quente, o rosto corado, e abro um sorriso. Mas a realidade implacável me faz abrir os olhos e ver que nada há ali, só o vazio. Aí então, tudo parece desabar.
  Sim, estou triste. Desculpe, sei que deveria dizer o contrário, mas não quero mentir. Eu queria poder te ter aqui agora, pra poder mostra tudo o que não mostrei, dizer o que não disse, fazer o que não fiz, mas gostaria de ter feito.
  Quanto tempo perdemos, não? Quantas luas se passaram sem que disséssemos palavras de amor um ao outro. Sem ao menos um olhar, às vezes. Eram tantas as coisas que gostaria de viver ao seu lado, tantas foram as viagens que desenhei em pensamento, todas em sua companhia.
  O que houve, se o amor ainda vive, por eu continuo embaixo deste cobertor no meu quarto, e você em sua casa, lendo? Por que, então, não pego agora um ônibus pra, daqui quinze minutos bater na sua porta. Eu não sei, isso não faz sentido. Na verdade faz, mas não quero entender. Saber o porquê talvez me impeça de sonhar.
  Esquecendo tudo isso, quero dizer, novamente – talvez em vão, mas isso não depende de mim – que te amo. Tanto que meu coração se torna uma lareira largada às cinzas sem sua lenha para acender-lhe a chama. Quero que saiba que meu último desejo é me perder num abraço seu.
  Chega de drama, preciso de uma aspirina. Volto quando a fraqueza bater novamente.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Filho da noite

  Era noite. Mais uma dessas madrugadas quentes de verão. Ao que a cama se tornou insuportável, como fogo em minha pele, levantei-me. Deixei que meus pés insones me guiassem, cegos, no breu. Comecei a caminhar, andar. Mas caminhandar era pouco, e tratei de correrandar. Um véu negro em meus olhos, via sombras tomarem formas, corria; rostos, vozes, corria; pensamentos maus na cabeça, corria... Fadiga...
  Percebi já estar perto da porta. Corri até ela e, abrindo-a, esperava acordar. Mas não, não, não! Estava na rua. Vaguei sem rumo, na companhia de uma bela dama, de infinito longo negro, brincos de pérola, e um sorriso que dizia muito. Sua beleza era encantadora, mas os perigos eram muitos. Andar na companhia da noite era como estar só. Gritasse o quanto pudesse, só ouviria o eco em resposta. Procurei, no céu, a lua, e nada encontrei, nem isso a noite me deixou.
  Em nada me ajudava andar, então parei e sentei-me sob uma árvore. Recostei no tronco sujo, impregnado de restos de fumaça, e um cheiro de amônia que não quis saber de onde vinha, e sumi. Sumido, vi algo se mover, vagaroso e cambaleando, arrastando-se pelo asfalto. Só via trapos, negros, imundos e, pelo relevo, concluí que debaixo dos panos havia uma pessoa. Seria ele um vagante como eu? Um infeliz que, como eu, perambulou, e perdera as esperanças? Ou, quem sabe, outro filho da noite a me atormentar? Quem sabe pior...
  O que antes era apenas um vulto, já virara uma sobra, e agora era quase sólido. Sentia um cheiro terrível, que me lembrava terra, cinzas, sangue... Morte. Meus olhos se arregalaram, e vi então um capuz. Sob ele, os piores pesadelos, os medos mais profundos, os segredos mais inconfessáveis, os passados mais escabrosos, as figuras mais horrendas. Uma mão, decrépita, submergiu dos trapos, segurando, leve e sombria, algo que reluzia a prata, refletindo o medo estampado em meus olhos. Lembrava-me uma foice, feita da mais nobre prata, com fio macio e afiado, os vestígios do sangue ainda na lâmina, que acabara de ser limpa nos panos sujos de suas vestes. Senti sufocar, e o silêncio era a gargalhada do diabo, e a foice direcionada a mim, pronta para desobstruir os canais entupidos.
  A coragem me veio a tempo e, sem saber pra onde, voltei a correr. Corri entre carros, corri entre corpos, corri entre a lama e o caos, fugindo de algo do qual não se fugia, não se podia fugir. Mas eu não era eu, era uma tempestade de pensamentos confusos, dor, e medo. Já não via mais nada, o véu negro novamente a me cegar. Caí, e dobrei meu corpo em dor. Uma angústia terrível encheu-me o peito, me coração se rasgou em sofrimento. As lágrimas eram negras, e corriam soltas pela face já deformada.
  Aproximando-me do suspiro final, usei da última fagulha de vida que ainda restava em mim, e roguei aos céus, à força que tudo aquilo criara, que tudo controlava, e que tinha o poder fazer tudo parar. Mas fui consumido de forma mais rápida ainda, e com maior força que antes. Nada pude fazer, e respirei pela última vez. E acordei.
  De súbito me vi em meu quarto. enxuguei o suor que escorria pela minha testa, e por todo o corpo, ensopando minha cama, e esperei até que minha respiração ofegante acalmasse, e minha lucidez retornasse. Não distinguia ainda pesadelo e realidade. Pus os pés no chão pra sentir a matéria que me assegurou que estava vivo e lúcido. Levei as mãos ao rosto, ainda ofegando. Desci a escada até a cozinha, tomei um copo d'água, vi no relógio que ainda era madrugada, mas não voltei a dormir. Sentei-me ao sofá da sala, e me ocupei de olhar a TV desligada. Sem conclusões! Seguirei vivendo...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Oração

Me levem os anéis, me cortem os dedos
Me levem os brincos, me arranquem as orelhas
Me levem os colares, me cortem o pescoço
Me levem as pulseiram, me navalhem os pulsos

Me levem as roupas, me tomem o corpo
Me levem os calçados, me empurrem à brasa
Me levem o ouro, me deixem na lama
Me levem a bengala, me joguem ao chão

Me levem tudo o que puderem pegar
Me levem aquilo que puderem tocar
Me levem até mesmo meu corpo inerte

Pois da alma não me levam as lutas vencidas
Não levam, nem a custo, o pão repartido
A semeadura
O chão percorrido não levam
A memória, até o mal que já fiz

Eu sou a semente que planto
Eu sou a palavra que digo
Eu sou o canto, a dança, a alegria da vida
Eu sou aquilo que você não é, não vê
Não viu

sábado, 17 de abril de 2010

Lágrima

Lenta
Do olho cai sem pressA
Grave
Rarefazendo aos poucos
CaI

Molhada deixa a face
Marcada deixa a almaA

o germe (parte III)

 Resolvi dar de comer ao germe hoje à tarde. Na escola, durante um intervalo tedioso, sentei com a solidão, e comecei a sumir. Digo sumir, o fato de me fechar em mim mesma, pois a sensação é de inexistência física, é como sumir. Lentamente, mergulhei cada vez mais e mais fundo em mim. Pensei nele. Me veio a dor e o êxtase. Mas tive medo, era tudo muito forte, forte demais, mais forte do que deveria, forte o suficiente para me deixar tonta.
 Ainda sumindo, desfoquei daquilo e olhei para o alto. Vi as pombas, nos topo do prédio da escola, pomposas, tomando conta do mundo. Eram duas, cada uma numa extremidade do prédio. Com o peito estufado, pose de soldado, e a graça e delicadeza de uma dama, observavam a tudo, como se nos guardassem, como se zelassem por nós. Queria poder entregar a elas uma carta, selada com meu nome e meu sangue, com tudo aquilo que não entendo e que rejeito. E que elas a carregassem para longe, longe da minha imaturidade, longe da minha inconstância, longe da minha inclinação ao erro.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Germe (parte II)

Estava instaurada a guerra. Eu lutava contra mim mesma tentando justificar a infertilidade do solo alheio. Será que nenhuma muda brotaria em seu coração? O que aconteceu com o jardim vasto, diverso, encantador que antes residia em seu peito? Negando a possível verdade, encontrei milhões de justificativas - desde um estresse passageiro, até a influência do demônio que tanto me alertara minha avó. Eu sabia que nada daquilo era sério, só uma maneira de eu me iludir, pra me sentir melhor. Logo agora que eu me sentia uma pessoa normal, capaz de amar com tanto mel que me causaria diabete, ele resolveu ficar amargo. Não sei qual foi o limão que ele chupou, mas agora quem estava azeda era eu.

O germe (parte I)

   Desculpe... Ainda estou digerindo. Enxerguei algo dentro de mim que me assustou. Mas não era algo que deveria estar ali, era um objeto estranho, um germe, que eu não esperava encontrar em mim.
  Me perguntava todo dia se amava, como qualquer pessoa ama. Mas a resposta não foi racional, nem imediata. Comparei-me aos humanos que conhecia - eu que adorava analisá-los, agora me comparando a eles pra chegar a um diagnóstico próprio. Os humanos normais, diferentes de mim, diziam o nome da pessoa amada com regozijo, usam hipérboles para dramatizar ainda mais os dramas do casal, reclamavam da saudade insuportável de uma semana, da distancia imensa de alguns quilômetros, e explodiam em amor quando, finalmente, estavam ao lado de seu par - eu quase podia ver o amor, rosa, pairando, como a fumaça após a explosão, por entre o casal. Comigo era diferente. Eu, definitivamente, não tinha talento para isso: não babava mel ao falar dele, não tornava uma novela nossa relação, não saltitava ao vê-lo. Eu não era assim. Não com ele. Lembrei de meu passado melo dramático-românctico-adocicado-melindrado-idiota e repulsei.Não queria aquilo de novo. E, até então, pensei que com ele meu objetivo de ser mais madura estava sendo alcançado.
  Foi quando, em mais um dos finais de semana que passávamos juntos, eu olhava nos olhos dele, e ele não olhava nos meus. Esperei com ansiedade que a vergonha passe, e ele me encarasse de volta, mas não aconteceu. Desviei o olhar também. Segurei em sua mão, esperando que uma conexão se formasse, e eu me sentisse quente por dentro, mas algo nos bloqueava, não deixando a energia fluir. Foi aí que percebi a existência do corpo estranho em mim. O mesmo corpo, que em outros vivia tão pacificamente, inerente ao ser, estava em mim, causando estranhamento. Um sobressalto, e olhei pra ele novamente, procurando este mesmo germe, que antes eu podia ver nele. Não confio muito em minha visão pra essas coisas, mas não vi nada: nenhum mel escorrendo, nenhum sorriso bobo, nenhum olhar de ternura, nenhum sinal do germe. Ele tentava disfarçar, mas eu o conhecia bem demais.
 Ainda estou sob o efeito do torpor que veio depois da descoberta. Ela veio acompanhada de um misto de medo e prazer, que agia em mim como anestesia. Eu, absolutamente, não me via vestindo aquela roupa, usando aquelas palavras, rindo daquela maneira. Era uma proibição íntima, era lei.. Mas, debaixo do meu nariz, a erva daninha cravou suas raízes. Quando percebi, já era tarde, perdi tudo o que cultivara com disciplina oriental. Deveria estar tudo bem, qualquer um estaria satisfeito, não fosse a segunda descoberta. talvez (com certeza) pior que a primeira.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Anísia

A luz do sol na janela
Na face refletida, revela
Intensa alegria de viver
Semostrada aos olhos de quem vê
Ilaqueia a quem não cuidar
Aquela que o sol faz brilhar

Inevitável

"Eu te amo", é inevitável; o medo que dá, é inevitável; a fuga na negação, é inevitável; a mentira, é inevitável; a vergonha, é inevitável; a culpa, é inevitável; o ciclo, é inevitável; voltar ao início, é inevitável; "Eu te amo", novamente, inevitável.
 A tristeza: inevitável; sentir o coração apertado: inevitável; sentir os olhos úmidos: inevitável; e, inevitavelmente, desapegar de tudo num abraço quente.
 inevitável é fugir do seu olhar; inevitável é a tentação do beijo; inevitável é queimar na chama do desejo; invitável e a ilusão; inevitável é a irracionalidade.
 inevitáveis somos, inevitáveis estamos, e inevitáveis seremos, pois você é inevitável. e inevitávelmente não resisto a você.

sábado, 3 de abril de 2010

Cara de pau Brasil

  Então, era tudo falso. Nos olhos deles eu pude ver o baque de estar desprotegido. A máscara colada com hipocrisia, sustentada pela alienação nos olhos de quem vê, caiu e fez barulho. Poucos (ou)viram.

  Era triste ver, na face sem máscara, a decrepitude maquiada. O medo me tomou, mas a sensação de vitória me fazia rir. Era tão patético e ao mesmo tempo tão assustador. Talvez esse medo viesse da dúvida: será que um dia me tornaria um deles? Teria eu tal covardia? E afinal, quem era mais tolo – eu, que acreditei neles, ou eles, que acreditaram neles mesmos?