Era noite. Mais uma dessas madrugadas quentes de verão. Ao que a cama se tornou insuportável, como fogo em minha pele, levantei-me. Deixei que meus pés insones me guiassem, cegos, no breu. Comecei a caminhar, andar. Mas caminhandar era pouco, e tratei de correrandar. Um véu negro em meus olhos, via sombras tomarem formas, corria; rostos, vozes, corria; pensamentos maus na cabeça, corria... Fadiga...
Percebi já estar perto da porta. Corri até ela e, abrindo-a, esperava acordar. Mas não, não, não! Estava na rua. Vaguei sem rumo, na companhia de uma bela dama, de infinito longo negro, brincos de pérola, e um sorriso que dizia muito. Sua beleza era encantadora, mas os perigos eram muitos. Andar na companhia da noite era como estar só. Gritasse o quanto pudesse, só ouviria o eco em resposta. Procurei, no céu, a lua, e nada encontrei, nem isso a noite me deixou.
Em nada me ajudava andar, então parei e sentei-me sob uma árvore. Recostei no tronco sujo, impregnado de restos de fumaça, e um cheiro de amônia que não quis saber de onde vinha, e sumi. Sumido, vi algo se mover, vagaroso e cambaleando, arrastando-se pelo asfalto. Só via trapos, negros, imundos e, pelo relevo, concluí que debaixo dos panos havia uma pessoa. Seria ele um vagante como eu? Um infeliz que, como eu, perambulou, e perdera as esperanças? Ou, quem sabe, outro filho da noite a me atormentar? Quem sabe pior...
O que antes era apenas um vulto, já virara uma sobra, e agora era quase sólido. Sentia um cheiro terrível, que me lembrava terra, cinzas, sangue... Morte. Meus olhos se arregalaram, e vi então um capuz. Sob ele, os piores pesadelos, os medos mais profundos, os segredos mais inconfessáveis, os passados mais escabrosos, as figuras mais horrendas. Uma mão, decrépita, submergiu dos trapos, segurando, leve e sombria, algo que reluzia a prata, refletindo o medo estampado em meus olhos. Lembrava-me uma foice, feita da mais nobre prata, com fio macio e afiado, os vestígios do sangue ainda na lâmina, que acabara de ser limpa nos panos sujos de suas vestes. Senti sufocar, e o silêncio era a gargalhada do diabo, e a foice direcionada a mim, pronta para desobstruir os canais entupidos.
A coragem me veio a tempo e, sem saber pra onde, voltei a correr. Corri entre carros, corri entre corpos, corri entre a lama e o caos, fugindo de algo do qual não se fugia, não se podia fugir. Mas eu não era eu, era uma tempestade de pensamentos confusos, dor, e medo. Já não via mais nada, o véu negro novamente a me cegar. Caí, e dobrei meu corpo em dor. Uma angústia terrível encheu-me o peito, me coração se rasgou em sofrimento. As lágrimas eram negras, e corriam soltas pela face já deformada.
Aproximando-me do suspiro final, usei da última fagulha de vida que ainda restava em mim, e roguei aos céus, à força que tudo aquilo criara, que tudo controlava, e que tinha o poder fazer tudo parar. Mas fui consumido de forma mais rápida ainda, e com maior força que antes. Nada pude fazer, e respirei pela última vez. E acordei.
De súbito me vi em meu quarto. enxuguei o suor que escorria pela minha testa, e por todo o corpo, ensopando minha cama, e esperei até que minha respiração ofegante acalmasse, e minha lucidez retornasse. Não distinguia ainda pesadelo e realidade. Pus os pés no chão pra sentir a matéria que me assegurou que estava vivo e lúcido. Levei as mãos ao rosto, ainda ofegando. Desci a escada até a cozinha, tomei um copo d'água, vi no relógio que ainda era madrugada, mas não voltei a dormir. Sentei-me ao sofá da sala, e me ocupei de olhar a TV desligada. Sem conclusões! Seguirei vivendo...
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