Desculpe... Ainda estou digerindo. Enxerguei algo dentro de mim que me assustou. Mas não era algo que deveria estar ali, era um objeto estranho, um germe, que eu não esperava encontrar em mim.
Me perguntava todo dia se amava, como qualquer pessoa ama. Mas a resposta não foi racional, nem imediata. Comparei-me aos humanos que conhecia - eu que adorava analisá-los, agora me comparando a eles pra chegar a um diagnóstico próprio. Os humanos normais, diferentes de mim, diziam o nome da pessoa amada com regozijo, usam hipérboles para dramatizar ainda mais os dramas do casal, reclamavam da saudade insuportável de uma semana, da distancia imensa de alguns quilômetros, e explodiam em amor quando, finalmente, estavam ao lado de seu par - eu quase podia ver o amor, rosa, pairando, como a fumaça após a explosão, por entre o casal. Comigo era diferente. Eu, definitivamente, não tinha talento para isso: não babava mel ao falar dele, não tornava uma novela nossa relação, não saltitava ao vê-lo. Eu não era assim. Não com ele. Lembrei de meu passado melo dramático-românctico-adocicado-melindrado-idiota e repulsei.Não queria aquilo de novo. E, até então, pensei que com ele meu objetivo de ser mais madura estava sendo alcançado.
Foi quando, em mais um dos finais de semana que passávamos juntos, eu olhava nos olhos dele, e ele não olhava nos meus. Esperei com ansiedade que a vergonha passe, e ele me encarasse de volta, mas não aconteceu. Desviei o olhar também. Segurei em sua mão, esperando que uma conexão se formasse, e eu me sentisse quente por dentro, mas algo nos bloqueava, não deixando a energia fluir. Foi aí que percebi a existência do corpo estranho em mim. O mesmo corpo, que em outros vivia tão pacificamente, inerente ao ser, estava em mim, causando estranhamento. Um sobressalto, e olhei pra ele novamente, procurando este mesmo germe, que antes eu podia ver nele. Não confio muito em minha visão pra essas coisas, mas não vi nada: nenhum mel escorrendo, nenhum sorriso bobo, nenhum olhar de ternura, nenhum sinal do germe. Ele tentava disfarçar, mas eu o conhecia bem demais.
Ainda estou sob o efeito do torpor que veio depois da descoberta. Ela veio acompanhada de um misto de medo e prazer, que agia em mim como anestesia. Eu, absolutamente, não me via vestindo aquela roupa, usando aquelas palavras, rindo daquela maneira. Era uma proibição íntima, era lei.. Mas, debaixo do meu nariz, a erva daninha cravou suas raízes. Quando percebi, já era tarde, perdi tudo o que cultivara com disciplina oriental. Deveria estar tudo bem, qualquer um estaria satisfeito, não fosse a segunda descoberta. talvez (com certeza) pior que a primeira.
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