quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Meus trinta minutos

 Tenho exatamente trinta minutos.
 Mal sei por onde começo, muito menos onde terminarei. Sei de onde vim, e me lembro onde parei. Mas em trinta minutos o que mais saberei?
 Quanto tempo cabe em trinta minutos? O tempo de um grito, o tempo de uma lágrima, o tempo de um homem. Quanto tempo cabe em cada homem? Quantos homens cabem em trinta minutos?
 Quem eu sou em trinta minutos? Saberia eu responder a isso em trinta minutos? Posso responder muitas coisas neste tempo, e talvez acabe não respondendo a nada. Nós nunca sabemos nada, mesmo sabendo tudo. O tudo não existe.
 O tempo existe? Quanto tempo se passou? Cinco, quinze, dezesseis, zero... Números existem? Vivo as perguntas por enquanto, no futuro, talvez, eu viva as respostas.
 Questionar a mim é exercício improdutivo, questionarei a outro. Outro, que diz-me tu de mim? O nada me responde mais do que eu respondo a mim mesmo, por isso sempre recorro a ele. Trinta minutos conversando com o nada, são como anos conversando com Deus.
 O nada me dá a comida, mas eu devo digeri-la. O que concluo eu, então? Que vivemos os efeitos do mundo contemporâneo? Que tudo não passa de uma catarse? Que devo procurar auxílio médico imediatamente? Eu concluo que a verdade está no nada, e nada mais verdadeiro que nada concluir. Ao menos nada racional, vamos ao subjetivo. Pois subjetivando já se passaram quinze minutos, o racional levaria um tempo maior.
 Quero em trinta minutos, contidos em quinze, contar uma história sem roteiro. Quero mandar uma carta em branco, e quem receber que a escreva. Escreva em trinta minutos, quinze, e não conclua. A conclusão sempre será incompleta. A sensação sempre será verdadeira. A sensação vem do nada, o nada subjetivo, o nada que é sincero, inocente, inconsciente.
 E sem perceber me chegam os cinco minutos finais. Se me preocupasse em concluir algo, esses seriam meus momentos de morte. A cada minuto eu morreria um pouquinho e, ao último minuto, se nada concluísse, morreria com pompa, uma morte digna de uma tragédia grega. Gosto do drama.
 Mas nada quero concluir, concluam vocês, se quiserem.
 O que cabe agora é um adeus, mas também não quero me despedir, portanto direi, oi. E só.

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