sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Relicário

 Guardo em mim resquícios de beleza, momentos de inteireza, sentimentos de pureza. Guardo a natureza, e tudo que há de mais natural, essencial. Guardo o dourado das tintas de Klimt. Guardo o azul do Bispo do Rosário. Guardo o balanço suave dos cânticos sagrados do candomblé. Guardo, à sombra do meu sol em Capricórnio, um canceriano frágil, à deriva em marés sentimentais, preso em minha couraça feita de tudo aquilo que guardo, e que me guarda.
 Guardo os cachos de Clara Nunes. Guardo o sorriso irresistível de Maria Bethânia. Guardo o feminino, o yin  Guardo o aconchego do colo, do abraço, do toque. Guardo Oxum, Nanã, Iemanjá. Guardo o toque de Ijexá. Guardo Iansã, sua inquietação e sua força motriz.
 Guardo um leque. Guardo uma lua de cristal. Guardo um muiraquitã. Guardo alguns beijos que me fizeram imergir em estados absolutos de carinho e de troca.
 Guardo as memórias de infância. Guardo os bonecos com os quais criava personagens, estruturava personalidades, atribuía a eles capacidades sobre-humanas, tecia narrativas. E tudo era real.
 Em meio a tantos guardares, eu me guardo em meu relicário. Pois, talvez, sendo tamanha a sensibilidade, minha melhor defesa sejam os tesouros incompartilháveis que carrego comigo.

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