sábado, 20 de outubro de 2012

Trabalho de auto-conhecimento através da leitura de imagens, associando memórias de minha infância - através de registros fotográficos - e minhas produções estético/artísticas atuais




 Primeira foto: eu, com idade provável entre 3 e 5 anos, sunga rosa, de costas e me virando para mirar entusiasmadamente outras crianças brincando na água, enquanto estou no colo de minha mãe. Ela está no centro, maiô preto, me envolvendo com os dois braços, me elevando quase acima de sua cabeça. à direita, a terceira pessoa é meu pai, sunga preta, à sombra de minha mãe, quase que salta tentando aparecer no retrato. O cenário é um clube de férias em Santa Isabel ao qual fui inúmeras vezes quando criança, junto com minha família. Estamos os três cercados por água e pela cor azul. É dia de céu limpo e muito sol.

 Segunda foto: altar doméstico, feito por mim, localizado em um dos quartos de casa. Definem-se claramente três figuras/objetos/personagens: à esquerda, um recipiente rosa, de dentro emergindo uma chupeta; Ao centro, uma imagem de Oxum (orixá das águas doces e cachoeira, do amor, da beleza, da feminilidade, etc) em frente a um leque de madeira, pintado com figuras de aves; à direita, vemos uma caixinha preta, quadrada de bordas arredondadas, usualmente utilizadas para guardar alianças, colares, etc. Dentro dela há um quartzo rosa. Recorte de uma fotografia tirada por mim com um celular.

 Inúmeras relações - que a princípio me deixaram abismado - pude criar entre as duas imagens. A primeira delas é o fato de inquestionavelmente haver três objetos/momentos/personagem, dispostos de forma similar na foto, havendo um ligação entre cada um deles em ambas as imagens.
Eu me vejo representado pelo recipiente rosa (que lembra a cor de minha sunga), em formato de caldeirão, com bordas retorcidas. Dentro dele há dois brincos dourados de argola, um colar de miçangas em tons de dourado, e sobre tudo isso, uma chupeta lilás. Os três objetos tem valores energéticos/espirituais/sentimentais muito grande para mim.

 O dourado das bijuterias está claramente relacionado à figura do meio, Oxum. No candomblé se veste Oxum com muito dourado, que é sua cor. Colares, brincos, braceletes de ouro também são comuns. Oxum é minha mãe espiritual, e na fotografia, a imagem sagrada representa minha mãe carnal, e todo o peso psicológico do arquétipo da mãe. No altar esta mãe está destacada por um leque, uma aura. Dentro de mim (interior do vaso) carrego os resquícios, as marcas (brincos, colar) da relação com essa figura materna, guardares emocionais que se mantém invisíveis ao olhares externos, enterrado sob a chupeta, e toda sua força simbólica. Minha mãe é taurina, e meu ascendente também é touro, signo voltado aos sentidos físicos e ao mundo material (memórias/cicatrizes materialmente representadas por jóias dentro do vaso rosa), regido por Vênus (Deusa análoga à Oxum). O ascendente é a forma de autoafirmação do indivíduo no mundo, e no meu caso ela se dá de maneira material, sensorial, estética.

 Por fim, vemos meu pai, representado pela caixinha preta (sunga preta) quadrada (forma geométrica associada ao masculino/linha reta, em oposição ao círculo/feminino, linha curva). Esta caixa se abre em duas metades (meu pai é do signo de peixes, signo mutável, representado graficamente por dois peixes, um em queda, outro em ascensão) como uma concha, dentro se vê uma pérola (quarto rosa - sunga rosa). Este quartzo foi energizado para atuar na vibração do chacra cardíaco, para estimular o amor próprio. Peixes é o signo da redenção espiritual através do amor universal, da consciência da unicidade, da compaixão. É o mártir, é o Cristo. Mas também é a queda nos vícios, na fuga da realidade, na autodestruição. Esse é meu pai, meu principal exemplo de figura masculina, e eu, esta pedrinha miudinha (quartzo) de aruanda, me vejo rodeado por essa sombra (caixa preta).

 Quanto mais observo, mais relações ficam evidentes. Seriam essas semelhanças tentativas inconscientes de reviver estes momentos, de reafirmar estes arquétipos, de extravasar sentimentos recalcados, reprimidos, de aliviar tensões internas?

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